Para além de um título bonito, um filme instigante

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. A poesia do título me bastou para querer ver o filme. Um nome com tamanha sensibilidade só podia resumir uma boa história. A suspeita me levou até o cinema na estreia em Blumenau, sexta-feira. Triste ver a sala vazia justamente no dia do lançamento do longa nacional por aqui. Éramos quatro espectadores. Torço realmente para que o episódio não represente um indicativo de que o filme não será bem recebido pelo público. No decorrer de uma história que passeia por tempos distintos, a produção de Beto Brant e Renato Ciasca (parceiros em filmes como “Cão Sem Dono” e “O Invasor”) mostra ser bem mais que um título bonito.

Evitei ler sobre o filme antes, mas saí da sessão absorvida pelo desejo de devorar o livro homônimo de Marçal Aquino, lançado em 2005 – que inspirou a produção. Transformar as 232 páginas do livro num longa com 1h40min certamente se reveste de um desafio tremendo, o que de certa forma pode explicar a dificuldade de transpor a complexidade da história e dos personagens para as telas. O filme deixa lacunas. É superficial ao abordar a forma como Lavígnia, a protagonista, conhece Cauby. Também não contextualiza a história do fotógrafo que aparece sem que o espectador saiba ao certo de onde veio. No decorrer da trama, dá pistas sobre seu passado, no Sul, sem no entanto aprofundar detalhes. Mas a ausência desses elementos abre espaço para a imaginação buscar respostas não reveladas e nada disso compromete o resultado final.

A história em si talvez não seja o mais interessante na obra, e sim a maneira como os personagens se relacionam e a incorporam. Com uma narrativa envolvente, a trama se baseia num triângulo amoroso. Mostra quanto o amor pode interferir, mudar completamente o destino das pessoas e deixar sequelas irreversíveis.

A não linearidade da história nos leva a conhecer a instabilidade e as diferentes facetas da protagonista Lavígnia. Ex-garota de programa que acompanha seu marido, o pastor Ernani (Zé Carlos Machado), em missão no Pará e mantém um caso tórrido com o fotógrafo e forasteiro Cauby (Gustavo Machado). A ilimitada gratidão e devoção de Lavígnia ao pastor que a tira das ruas e das drogas incomoda. Vivida por Camila Pitanga, Lavígnia ganha força. A entrega da atriz à personagem ocorre de forma visceral e transpira em cada cena. Garante a profundidade e complexidade exigida por Lavígnia. Por experimentar situações que vão de um extremo ao outro, Camila Pitanga se transforma em cena e mostra o quão entregue está ao papel. Merecidamente recebeu o prêmio de melhor atriz no Festival do Rio em 2011, além de vários elogios da crítica. O filme também foi premiado em Huelva, na Espanha, e na Mostra Internacional de São Paulo.

O cenário onde é ambientada a história rende cenas belíssimas, através da fotografia de Lula Araújo, profundo conhecedor da região. Santarém, no Pará, serve para boa parte das locações e revela questões culturais e regionais peculiares. Além das imagens de belezas naturais da região, a utilização de não atores e figurantes locais transparece ainda mais naturalidade à trama, cria uma atmosfera real. Há de se registrar ainda as participações do malicioso colunista social (recuso-me a tratá-lo como jornalista!) Viktor Laurence (Gero Camilo) que vão do cômico ou romântico ao fazer citações literárias adaptadas ao contexto. As conversas entre ele e Cauby também podem ser consideradas ponto alto do filme, ao discorrerem quase sempre sobre o amor e a morte. As frases ditas por alguns dos personagens também não passam despercebidas e rendem reflexões: “Não há paixão sem luta”, “Santa é a carne que peca”.

O filme pode pecar pela falta de ritmo em alguns momentos. Mas o surpreendente desfecho certamente é compensador. Fez-me sair da sala de exibição feliz por ver o cinema brasileiro ousar, buscar novos caminhos e temáticas, com uma produção que se distancia da miséria e violência. Vejo um cinema nacional ávido por descobrir novas facetas. Afinal, o cinema vai além de um mero entretenimento. É arte que serve para refletir, analisar, despertar interesses, explorar contradições da condição humana. E isso Eu Receberia as piores notícias de seus lindos lábios faz com êxito.

Por Magali Moser

Publicado em Jornalismo | Deixe um comentário

Blumenau: líder na geração de empregos (de baixos salários)

Conhecida como polo de desenvolvimento regional, Blumenau ostenta o título de cidade líder na geração de empregos em Santa Catarina. Ocupa a 13° posição no ranking nacional. Os números propagados com ênfase pela prefeitura colocam o município como recorde na criação de vagas de emprego formal do Estado, com base nos dados do primeiro trimestre do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho. Mas as estatísticas oficiais escondem uma realidade que pede reflexão: a média do salário do trabalhador hoje em Blumenau é pouco mais que dois salários mínimos (R$ 1.429,02). Dos 128 mil trabalhadores formais do município, 92.691 (71,92%) deles recebiam até 3 salários mínimos em 2010. A grande massa dos trabalhadores ainda é mal remunerada: a maior concentração de trabalhadores está na faixa de 1,51 a 2 salários mínimos (25,90%).

A geração de empregos na cidade está distribuída por diferentes setores da economia, da indústria de transformação (têxtil, vestuário, metalmecânico, etc), à administração pública e serviços (educação, transporte, alimentação). Mas a constatação dos baixos salários ganha peso quando pende para a avaliação das vagas geradas.

De janeiro a março deste ano, o cargo que registrou a maior quantidade de vagas abertas no SINE de Blumenau foi o de auxiliar de produção, com um salário médio de R$ 800. Em abril, a maior parte das vagas foi para a construção civil, incluindo cargos como carpinteiro, pedreiro e servente, com salário médio de R$ 1.200. A remuneração passa longe dos R$ 2,3 mil considerados como salário mínimo necessário pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos).

- Isso é uma dinâmica do próprio capitalismo. Infelizmente, no Brasil, ainda como país terceiro mundista, a massa salarial da população ainda é baixa. Blumenau não foge à regra. A melhoria da qualidade das condições de trabalho e de salário é resultado de uma luta social e cotidiana – analisa o professor e chefe do Departamento de Economia da Furb, Sidney Silva.

Para o professor, o quadro segue a chamada lógica de mercado dentro da sociedade capitalista: as negociações salariais são feitas diretamente entre as classes trabalhadora e patronal. O Estado se omite, sua única função é regular o salário mínimo. No geral, os salários são definidos a partir da oferta e da procura.

O diretor de Desenvolvimento Econômico da prefeitura, Sylvio Zimmermann, atribui a alta geração de empregos na cidade à crença do trabalho estar no “DNA de Blumenau”, fortalecendo a ideia de que o crescimento econômico está ligado a fatores culturais quase intrínsecos ao povo daqui:

- Temos um pano de fundo sócio cultural que ajuda a fomentar o índice de geração de empregos assim como os elevados índices de empregos formais – analisa.

A responsável pelo SINE em Blumenau, Sandra Regina Alves da Silva Schatz, lembra que a maioria das vagas geradas são de reposição e apenas 30% de ampliação do quadro. Em média, o SINE tem 130 vagas ativas disponíveis por dia, principalmente na área do comércio e auxiliar de produção.

- A maior parte das vagas nao exige tanta qualificação. É a chamada “vontade de trabalhar” o que conta. Mas no processo final, os empregadores buscam os mais qualificados – lembra Sandra.

Mas o aspecto mais triste deste “boom” de empregabilidade são as condições de trabalho. Boa parte dos trabalhadores é obrigada a trabalhar em horários de escala, com isto não se respeitam mais finais de semana, feriados, horários de trabalho, etc. Conseguem passar apenas um final de semana por mês com a família.

Os desajustes familiares e sociais são evidentes. O crescimento dos empregos por aumento da jornada de trabalho (finais de semana, feriados) é pago com a perda de afeto e convívio no ambiente familiar (muitos acham que não precisam mais amigos e familiares “presenciais”, porque têm muito mais amigos virtuais nas redes sociais).

As estatísticas referentes à geração de empregos atraem e explicam facilmente o visível fluxo migratório para a cidade. O crescimento nos empregos também está relacionado com a catástrofe de 2008, porque foram liberados milhões do FGTS e foram feitos vários investimentos públicos e privados em obras de recuperação. Tudo isto causou um efeito multiplicador na renda expandindo as atividades econômicas na região.

Os números de geração de empregos na cidade escondem ainda facetas pouco discutidas: as condições de trabalho e a saúde dos trabalhadores. Pesquisa coordenada pela professora Elsa Bevian a fim de criar um banco de dados em saúde do trabalhador em Blumenau aponta que entre 2005 e 2010 foram registrados pelo CEREST 31.682 atendimentos cadastrados como acidentes de trabalho. Do total, 54% dos acidentes registrados acontecem nos dois primeiros anos de contrato de trabalho e 16% nos três primeiros meses de contrato. Dados recolhidos no INSS no mesmo período revelam que, em média, 10% dos trabalhadores com emprego formal, são afastados todos os anos devido aos acidentes de trabalho.

A constatação pede uma reflexão sobre os empregos gerados e a mudança de postura para a cidade ser referência na qualidade de vida, como diz a propaganda da prefeitura, que divulga a cidade como a melhor para se viver em Santa Catarina.

Por Magali Moser

Publicado em Jornalismo | Deixe um comentário

Um tributo de amor à sétima arte

Os motivos que fazem Herbert Holetz emprestar o próprio nome a uma das mostras do 1° Festival de Cinema de Blumenau

“A vida não é como se vê no cinema. A vida é mais difícil”. A frase é do projecionista Alfredo, no clássico filme Cinema Paradiso, mas bem que poderia ser de autoria de Herbert Holetz. As semelhanças entre o personagem da obra de Giuseppe Tornatore e o cinéfilo mais famoso de Blumenau vão além das desilusões e alegrias de uma trajetória de entrega irrestrita ao cinema. Com encantadora personalidade e enorme coração, Alfredo e Herbert fizeram das próprias vidas um tributo de amor à sétima arte. Acumulam frustrações diante do vazio deixado por um objeto amado. Colecionam memórias nostálgicas. Mas não se deixam vencer pelas adversidades. Como o personagem da película italiana, Holetz também sofre da “doença do cinema”. Desde que conheceu o Cine Busch, quando a mãe o levou para a primeira sessão, no início da década de 1940, o cinema entrou na vida de Holetz e não saiu mais.
Fácil seria se, a exemplo do método de censura imposto por padre Adélio, que cortava todas as cenas de beijo – consideradas por ele como impróprias – nos filmes exibidos no Cinema Paradiso, Herbert Holetz pudesse suprimir da memória as cenas e episódios que lhe causaram um acúmulo de mágoas e tristezas decorrentes das desilusões com a entrega ilimitada à sétima arte. Mas Holetz sabe que a vida não se compara a um filme e conhece a dor e o prazer da escolha que o acompanha desde a adolescência, quando optou pelo cinema como forma de sobrevivência.
Começou aos 17 anos, como lanterninha, no Cine Busch. A necessidade de ajudar na renda familiar obrigou-o a se afastar da sala de aula. Passou por várias ocupações, como a de auxiliar, porteiro, bilheteiro até chegar ao cargo de gerente.  Foi um dos responsáveis pela criação do Cine Clube de Blumenau, ao lado de personalidades de forte influência nas áreas artística e cultural, como Gervásio Tessaleno Luz, Bráulio Maria Schloegel, Daniel Curtipassi, Elke Hering e Lindolf Bell. Durante quase 20 anos, escreveu sobre cinema para vários jornais da região, entre eles A Nação e o Santa. Coordenou programas de cinema nas Fundações Culturais de Joinville e Blumenau, onde mantém até hoje o Programa Cine Arte. Reúne acervo que inclui vasta coleção de fotos, livros, reportagens, cartazes e fitas VHS compilados ao longo da vida. O Cine Busch guarda as suas melhores lembranças. Não apenas porque nas poltronas numeradas do antigo espaço teve o primeiro contato com o cinema.

Para Holetz, o cinema morreu junto com o fechamento do Cine Busch

O prédio em estilo Art Déco era símbolo da Alameda Rio Branco, no Centro. Tornou-se patrimônio histórico da cidade, quase como a presença ímpar de Herbert Holetz, que trabalhou por mais de 40 anos no local. O Busch foi o primeiro cinema fixo do Estado de Santa Catarina e representa todo o pioneirismo de Blumenau nesta área. Mas o primeiro contato de Blumenau com a sétima arte data antes da inauguração do espaço, em 11 de agosto de 1900, quando foi realizada no Teatro Frohsinn a exibição do filme: Palco debaixo d`água. José Julianelli, Alfredo Baumgarten e Willy Sievert fizeram história na cidade com as imagens em movimento na região do Vale do Itajaí no início do século XX. Das projeções ambulantes, deste período, até a consolidação das salas de exibição com funcionamento regular e ininterrupto, a sétima arte passou por várias mudanças. Holetz testemunhou boa parte delas.
A trilha sonora de Cinema Paradiso, de Ennio Morricone, também serviria perfeitamente como pano de fundo da vida do cinéfilo. A nostálgica música se confunde com o clima de saudade deixado pelos cinemas fixos na vida dele. Por ter trabalhado por tanto tempo nas salas de exibição, Holetz vivenciou experiências que marcaram as transformações das casas de projeção cinematográfica na região, desde a popularização da televisão, logo depois do vídeo-cassete, mais recentemente do DVD, BluRay e a migração dos cinemas para os shoppings.
Chega a ser curioso, mas ao mesmo tempo em que ele gosta tanto de cinema, não freqüenta mais as salas de exibição. Prefere assistir aos filmes no conforto de sua casa, por entender que o cinema se descaracterizou, perdeu sua essência em função da modernização e do desrespeito do público que esquece o celular ligado durante a sessão ou faz um verdadeiro piquenique na sala. Por várias vezes, tentei convencê-lo a ir ao cinema comigo em Blumenau, mas fui vencida pela teimosia dele. Para Holetz, o cinema morreu junto com o fechamento do Cine Busch.  Por isso, entrega-se às lágrimas com facilidade ao falar da vivência no antigo cinema.
Holetz costumava receber o público na entrada do Cine Busch. Mantinha o hábito de conversar com o público antes e depois das sessões. A paixão dele por esse mundo de ilusão em movimento levou toda a família a trabalhar no Cine Busch. Dona Lori, com quem é casado desde 1961, trabalhou 24 anos na bombonière, ao lado dos três filhos – Jorge, Letícia e Regina. Só deixou o local quando o Cine Busch fechou, em 1993. Por isso, dois anos depois, quando surgiu o convite para Holetz assumir o cinema em Joinville, não hesitou. Mesmo muito triste com o fechamento da casa em Blumenau, apoiou a mudança como forma de incentivo. Apesar da família inteira ter se envolvido com as atividades do Cine Busch, dona Lori não lembra de uma única vez em que os cinco assistiram juntos a um filme na sala escura.
Além do Cine Busch, o Cine Mogk, na Itoupava Norte, Cine Carlitos, o Atlas, na Vila Nova, o Cine Garcia (popular pulgueiro), o Cine Blumenau, na Rua XV de Novembro se tornaram sinônimos dos chamados tempos de glória do cinema por aqui.
Aquele mundo de sonhos, efeitos e sons despertava fascínio sobre a população. A época de “ouro”, cheia de glamour, dos cinemas de bairro lembram quanto o simples ato de ir ao cinema exigia um rito especial. Nessa época, os blumenauenses desfilavam os melhores trajes nas casas de exibição. Homens engravatados e mulheres com os melhores vestidos, algumas até com estolas de pele, à espera do sinal tocar, com o aviso de que o filme iria começar. O cheiro de gel fixador do cabelo dos garotos se misturava à fragrância suave do perfume das moças e ao aroma do drops, comum no ambiente. O clima era de encontro, de paquera, de troca de gibis com amigos… de convivência.
Todas as salas de exibição tradicionais da cidade perderam lugar para pontos de comércio ou atividades mais rentáveis. A exemplo do Cinema Paradiso, derrubado aos olhos da cidade que viu seu auge, o Cine Busch perdeu espaço e hoje serve como centro de convivência do Grande Hotel Blumenau. O fechamento do Busch foi seguido do processo de transferência gradual de todas as salas de cinema para dentro de shoppings da cidade.
O fim do Cine Busch não representou apenas a extinção de uma casa de exibição, mas o término de uma época. Para Holetz, o declínio dos cinemas de rua e o advento das salas multiplex – com equipamentos modernos, som digital, poltronas confortáveis, bilheteria eletrônica – é uma fase ainda difícil de ser superada. É perceptível como essas transformações resultaram numa mudança no próprio hábito de ir ao cinema. Muito do ritual que se tinha se perdeu.
A comodidade e a segurança dos shoppings passaram a ser mais atraentes. Mas como lembra Carlos Drummond de Andrade: “quem não sentiu a perda de um cinema freqüentado durante anos tem memória nublada ou coração de pedra”. Quando aceitou o desafio de voltar ao espaço do Grande Hotel, onde funcionava o Cine Busch, comigo, em 2005, Holetz reviveu cada pormenor do local que foi extensão da própria casa durante muito tempo. Os pequenos detalhes encontrados no então cinema foram relembrados com intensidade, e mostram que quando algo é realmente importante na vida de alguém, não desaparece tão facilmente. A memória de Holetz era de se impressionar. Lembrou dos intervalos que fazia para o café com dona Lori, na confeitaria Socher. O encontro teve o cheiro do bolo de nozes que costumava pedir. Na subida dos primeiros degraus, ensaiava dar comida aos passarinhos, como fazia quando trabalhava na casa. Holetz sabe que a vida é feita dessas pequenas memórias.
Dona Lori reconheceu a paixão do companheiro desde o início. A relação que começou como amizade e se fortaleceu com a troca de livros na juventude, consolidou-se com o casamento e gerou três filhos e quatro netos. Naquela época costumavam namorar as quartas-feiras e aos sábados. Quando assumiram o namoro, Holetz foi apenas a primeira quarta-feira na casa da moça que na época trabalhava na então casa Peiter, de secos e molhados, na Rua XV. Na segunda semana já disse que não poderia mais ir, que teria de trabalhar no cinema. Começava aí a compreensão inesgotável de Lori para com o companheiro.

Para além de um aficcionado por cinema, um ser humano admirável

Não é apenas a paixão ilimitada pelo cinema que faz Herbert Holetz ser admirável. Apesar do vasto conhecimento nesse mundo da ilusão, não gosta de holofotes e insiste em dizer que sabe pouco. Prefere o anonimato e esforça-se por passar despercebido. Mas este homem esguio de cabelos brancos que desfila pela Rua XV de Novembro sempre impecavelmente vestido com calças de prega e camisa social não consegue esconder a popularidade no vai-e-vem em busca de novos filmes ou cartazes para o acervo. Recebe manifestações de carinho e afeto por onde passa. Sempre solícito, não nega o empréstimo de materiais raros da coleção, para quem o pedir – para o desespero da historiadora responsável pelo Arquivo Histórico de Blumenau, Sueli Petry, que defende um controle mais rígido da coleção.
O motivo das conversas com ele sempre é o mesmo. Respira cinema por todos os poros e têm na arte o oxigênio da própria vida. Nos nossos encontros, Holetz repete uma frase com frequência: “quero ter um milhão de amigos”. Desde que o conheci pessoalmente, numa sessão de cinema do Programa Cine Arte, da Fundação Cultural de Blumenau, em 2004, tive a certeza de estar diante de uma daquelas raras pessoas cujo amor pelo o que fazem as torna difíceis de serem compreendidas aos olhos da multidão. Deixa uma lição de amor e entusiasmo de quem nunca desistiu da paixão que o faz se sentir vivo.
O poder público pode investir mais do que faz para manter uma programação rica e diferenciada fora dos grandes complexos de cinema, em Blumenau. Não dá lucro, não leva multidões, mas é necessário manter uma programação alternativa, com filmes que fogem do apelo comercial. Holetz prova que coordenar um cinema hoje, fora do circuito das grandes redes, é coisa para quem é realmente fascinado pela atividade e não se rende diante das dificuldades.
Holetz entende que o cinema não é apenas entretenimento ou diversão. Na sala reservada à coleção particular de cinema, que mantém na casa onde mora, no Bairro Ribeirão Fresco, uma frase resume o pensamento que cultiva: “Cinema… o instrumento de expressão e de cultura mais perfeito de todos os tempos”. Quem conhece sua trajetória sabe que o cinema para Holetz é uma forma de libertação. Quando tinha cinco anos, foi vítima de malária. A mãe, que já tinha perdido o primogênito, Alfredo, num acidente doméstico, superprotegeu Holetz na esperança de salvaguardá-lo. Isso fez com que tivesse uma infância diferente dos colegas, passando a maior parte dela em casa, aos cuidados excessivos da matriarca.
Talvez seja difícil para aqueles que não o conhecem compreenderem os motivos pelas quais fizeram Holetz dedicar a própria vida ao cinema. No Cinema Paradiso, o projecionista Alfredo compara o trabalho a uma escravidão. “Você fica sozinho, vê 100 vezes o mesmo filme. Só faz isso. Conversa com Garbo e Tyrone Power como louco. Trabalha como um jegue”. Holetz também perdeu a conta dos feriados que passou no Cine Busch nos mais de 40 anos de trabalho na casa. Mas, como Alfredo, a recompensa da dedicação era a alegria de ver a plateia se divertir com a exibição. Fazê-la esquecer por alguns minutos das desgraças e tragédias da vida.
A exemplo de um filme, a trajetória do cinéfilo teve momentos de ascensão e calmaria. A homenagem que recebe do Festival de Cinema de Blumenau contribui para o reconhecimento da luta que trava incansavelmente em defesa da preservação do patrimônio cultural. “Seo Holetz do Cinema” como passou a ser chamado carinhosamente, não se deixa abalar pelas amarguras da vida ou pela falta de apoio nas atividades. Viu o próprio sonho desabar quando o Cine Busch fechou e lutou para evitar isso com todas as forças que pôde. Mas a maneira como resistiu às intempéries e perseguiu o sentido que deu para vida faz dele um obstinado, como Alfredo.

Por Magali Moser

Fotos: Arquivo Santa

Publicado em Jornalismo | 3 Comentários

A reportagem: Onde o Jornalismo pulsa em plenitude

Nesses dias de comunicação fácil e rápida, o jornalismo ganha evidência. A notícia – breve, quase instantânea– domina os conteúdos informativos. No entanto, a reportagem, essência do Jornalismo, não tem o mesmo espaço. O mais nobre dos gêneros jornalísticos – a reportagem – vive um momento de crise e distanciamento dos fundamentos conceituais. Nos diários e sites de veículos, a constatação ganha ainda mais força, ao se privilegiar a superficialidade da notícia e o chamado “furo jornalístico” em detrimento da contextualização e do aprofundamento.

A constatação inevitável não abala no entanto quem tem o Jornalismo como a própria vida, como Elaine Tavares. Estive ontem no lançamento do novo livro da jornalista, no auditório do Instituto Blumenauense de Ensino Superior, o Ibes. Foi uma oportunidade para voltar no tempo e amenizar a saudade das aulas mais instigantes da faculdade. Elaine provoca, contesta, argumenta. Expõe sua leitura sem medo da crítica e espera “as pedras”, como brinca. “Em busca da Utopia: os caminhos da reportagem no Brasil dos anos 50 aos anos 90” lança um olhar profundo sobre a dama do jornalismo: a reportagem e não se deixa abalar pelo “jornalismo gosma” como define o estilo praticado pelos veículos que priorizam o furo.

O compromisso com o factual e a busca incessante da objetividade mudaram o processo de produção das reportagens em jornais diários. No anseio pela “notícia de última hora” e na urgência de redações atropeladas pela informação on line, a prioridade deixou de ser a humanização do relato, as impressões e o olhar do repórter. A capacidade reflexiva e o registro documental da narrativa deram lugar à efemeridade. O impacto é inevitável: o texto se torna distante do leitor, com um discurso declaratório e homogeneizado.

Em defesa de um texto noticioso cujo objetivo se restringe a responder as perguntas básicas da prática jornalística do lead (O que? Quando? Quem? Como? Por que?), a fórmula propagada como “sagrada” perde força diante da perspectiva de informar o leitor em profundidade e abrangência. A reportagem destaca-se pelo olhar do repórter, pela maneira como o fato é narrado, humanização do relato e contraponto à objetividade do lead.

Reportagem é mergulho, entrega. Depende da sensibilidade de quem a escreve. Brota dos sentidos do autor. Carrega a própria essência, a alma do Jornalismo, com o desafio de esgotar um fato em um relato ampliado, de carregar valor documental. Requer profundidade, busca de abordagens múltiplas e conexões com o passado e presente capazes de fundamentar reflexões.

Debruça-se sobre pormenores que à primeira vista podem não parecer importantes, mas que, ao final, proporcionam um conhecimento amplo sobre o tema em discussão. Repórter é aquele que vai para a rua em busca de um novo ângulo, ouve mais do que fala, que duvida das suas próprias certezas e não se deixa acomodar pela banalidade do cotidiano. A ausência da reportagem e a redução da capacidade analítica dos textos ajudaram a transformar os produtos jornalísticos em objetos de entretenimento.

O jornalismo diário se centra na fragmentação da notícia e deixa de contextualizar e interpretar os assuntos. É preciso reconhecer na reportagem um dos fundamentos do próprio jornalismo. O bom jornalismo está para além do furo. É capaz de transcender ao tempo.

Por Magali Moser

Publicado em Jornalismo | 1 Comentário

“A Metamorfose” de Kafka sob a ótica da crítica sociológica

O mais famoso livro do escritor tcheco Franz Kafka não conta apenas a história do homem transformado em um inseto monstruoso. Ao narrar a trajetória do caixeiro-viajante Gregor Samsa – que ao acordar vê o próprio corpo metamorfoseado em um bicho com “dorso duro e inúmeras patas” – o escritor consegue, através de metáforas, contextualizar a condição humana e os dramas psíquicos da sociedade. Considerando o conceito usado no livro “Teoria Literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas”, de que crítica sociológica é aquela que procura ver o fenômeno da literatura como parte de um contexto maior, uma sociedade, uma cultura, a obra enquadra-se como exemplo concreto da concepção da produção literária como reflexo do contexto social de uma época.

A literatura não é um fenômeno independente, nem a obra literária é criada apenas a partir da vontade e da “inspiração” do artista. Ela é criada dentro de um contexto; numa determinada língua, dentro de um determinado país e numa determinada época, onde se pensa de uma certa maneira; portanto, ela carrega em si as marcas desse contexto. Estudando essas marcas dentro da literatura, podemos perceber como a sociedade na qual o texto foi produzido se estrutura, quais eram os seus valores.

O drama do personagem Samsa se assemelha à vida de um trabalhador comum que exerce atividades burocráticas. Ao relatar as experiências do inseto que se esperneia tentando voltar à posição natural, ele mostra as tentativas de se rebelar contra as imposições da sociedade. O caixeiro-viajante só consegue romper com o automatismo, a dominação e a alienação das atividades diárias e da rotina, na condição de inseto. Com ironia, Franz Kafka provoca o leitor para o questionamento.

O autor mescla a sátira com a tragédia ao longo da narrativa. Sem cerimônias, o leitor já se dá conta do teor da obra na primeira frase do livro: “Uma manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto“.

Não tanto quanto em outras obras da literatura, como o romance Senhora, de José de Alencar, por exemplo, (usado inclusive como referência no livro Literatura e Sociedade, de Antônio Candido para ilustrar a crítica sociológica), quando o autor faz referências explícitas a dimensões sociais ao citar lugares, modas, usos, manifestações de um grupo ou classe. A dimensão social que o autor dá para o livro se resume ao quarto do protagonista, onde se desencadeia praticamente toda a história. Mas nem por isso a narrativa deixa de associar a literatura como um fenômeno intrinsecamente ligado à vida social. A influência social na obra vai além dos lugares mencionados no livro. O apelo está muito mais para o contexto psicológico do personagem.

A obra foi escrita em 1912, dois anos antes do início da Primeira Guerra Mundial. O clima de agonia e pessimismo mantido por Kafka é apontado por alguns autores como relação direta com o cenário mundial da época em que a obra foi escrita. Apesar de ter sido escrita no início do século XVII, a obra permanece atual porque explora temas característicos da sociedade contemporânea, como a crise existencial, a desesperança do ser, pessimismo, a ausência de resposta, a solidão, impotência e a fuga – temas recorrentes da literatura de Franz Kafka.

A arte tanto é influenciada pela sociedade quanto a influencia. A influência da sociedade na obra aparece tanto na superfície do texto (descrição de casas, roupas, hábitos, etc) quanto na caracterização das personagens (sua psicologia, seus preconceitos, ambições). A influência da obra na sociedade acontece porque os indivíduos que lêem o texto recebem dele certa influência que pode traduzir-se na prática, mudando de alguma maneira o comportamento dos leitores.

A maneira como a história se desenrola proporciona uma imersão de quem a lê. O atraso para o trabalho leva o chefe de Samsa a ir até a casa do funcionário. A demora obriga a família e o chefe a abrir a porta do quarto, quando se deparam com uma barata gigante. Um outro aspecto a ser considerado é que apesar de em nenhum momento da obra o autor fazer referência ao nome do inseto ao qual Samsa foi transformado, o leitor subentende que se trata de uma barata. A descrição pormenorizada garante condições para essa interpretação. O fato de não haver uma menção explícita à barata também reforça as sutilezas usadas pelo autor para abordar o assunto. Assim como Machado de Assis deixa dúvidas em relação a possível traição de Capitu e Bentinho no livro Dom Casmurro – característica que faz muitos críticos considerarem o aspecto como grande mérito do escritor.

Após a leitura de A Metamorfose, o leitor pode ficar com uma incômoda sensação ao refletir sobre as contradições que envolvem as relações humanas. Quando a família descobre a transformação vivenciada por Samsa, ele passa a ser desprezível e deve ser eliminado. Mesmo quando a irmã mais nova começa a se aproximar dele com o objetivo de alimentá-lo, não esconde as esperanças de que voltasse à forma humana.

O problema e desconforto gerado pelo protagonista para a família se resolvem quando a barata morre. A partir de uma abordagem sociológica, a sensação de alívio da família com a morte de Samsa faz questionar sobre como os interesses pautam a convivência. Como o peso carregado pelo pai, a mãe e a irmã mais nova, que dependiam do dinheiro de Samsa para o próprio sustento, só acaba com o fim do inseto, cria-se a impressão de que ele só era bem quisto quando garantia um retorno prático, quando não estava impossibilitado de trabalhar e repassava a própria remuneração a eles.

Na medida em que não pode mais produzir renda, não serve para mais nada. Não é uma mera alusão à sociedade capitalista. Trata-se de uma forma – cruel, mas talvez verdadeira – de retratar a frieza e falta de escrúpulos do ser humano diante de situações de conflito. Quando a família passa a trabalhar e não depender mais dele, os problemas se resolvem. E ela faz questão de se livrar dele, como mostra esse trecho da obra:

“… quando nesse momento alguma coisa, atirada de leve, voou bem ao seu lado e rolou diante dele. Era uma maça; a segunda passou voando logo em seguida por cima dele. Gregor ficou paralisado de susto; continuar correndo era inútil, pois o pai tinha decidido bombardeá-lo. Da fruteira em cima do bufê, ele havia enchido os bolsos de maçãs e, por enquanto, sem mirar direito, as atirava uma a uma. As pequenas maçãs vermelhas rolavam como que eletrizadas pelo chão e batiam umas nas outras. Uma maçã atirada sem força raspou as costas de Gregor, mas escorregou sem causar danos. Uma que logo se seguiu, pelo contrário, literalmente penetrou nas costas dele. Gregor quis continuar se arrastando, como se a dor, surpreendente e inacreditável, pudesse passar com a mudança de lugar; mas ele se sentia como se estivesse pregado no chão e esticou o corpo numa total confusão de todos os sentidos…”

As maçãs arremessadas pelo pai ao filho demonstram toda a raiva e descontrole em lidar com o problema. A cena não transparece apenas a dor física de Samsa, ao ser atingido pelas maçãs, mas o sofrimento por não ser mais aceito pela família, sendo rejeitado. Na obra Literatura e Sociedade, o crítico Antônio Candido comenta as possibilidades de analisar uma obra do ponto de vista sociológico.

O elemento social se torna um dos muitos que interferem na criação de um livro, ao lado dos psicológicos, religiosos, lingüísticos e outros” (Candido; 1976; p. 7).

Candido é autor da teoria que defende a literatura como elemento social não só porque aborda temas da realidade social, mas porque é capaz de transformá-la. A Metamorfose explora a solidão, os sentimentos de exclusão e as crises do homem contemporâneo. Por abordar com profundidade aspectos sociais, é uma referência da literatura universal.

O mundo imaginário e surreal que marca as obras do autor faz surgir o termo kafkiano, característico de todo esse universo desconhecido e único. Em A Metamorfose, o fantástico norteia a história, mas uma leitura atenta pode revelar que a abordagem registrada na obra pode não ser tão imaginária como se pode pensar, em um primeiro momento. A impotência de Samsa perante ações que antes lhe eram rotineiras como sair da cama ou caminhar, faz uma alusão às fraquezas humanas diante de pressões sociais. Denuncia como a sociedade restringe o valor do ser humano ao que produz e às aparências.

Referências bibliográficas

BONNICI, Thomas e ZOLIN, Lúcia Ozana. Teoria Literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. Maringá: Eduem, 2003.
CANDIDO, Antônio. Literatura e Sociedade: estudos de teoria e história literária. 8º ed. São Paulo. T.A.Queiroz, 2000
FRANZ, Kafka. A metamorfose. 14º ed. Tradução de Modesto Carone, Companhia das Letras, São Paulo, 1997

Por Magali Moser

Publicado em Jornalismo | 1 Comentário

Reportagens para Programa Expressão, da Furb TV

Programa Expressão -Movimento Book Crossing em Blumenau
Programa Expressão – Músico John Mueller
Programa Expressão – Aulas de Blues no TCG
Programa Expressão -Hábitos de Leitura da população blumenauense
Programa Expressão – Mineração no Vale 1 – Minas da Prata
Programa Expressão – Museu Fritz Müller
Programa Expressão – Perfil Nana Toledo
Publicado em Jornalismo | Deixe um comentário

“O que houve em Pinheirinho foi um estupro social”

Perdido no horizonte, o olhar de desamparo de Dona Conceição busca respostas para tanta barbárie

“Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.”

Bertold Brecht

 

Com o entusiasmo de uma menina, Conceição de Oliveira protestava sem parar sob o sol escaldante: “o povo unido jamais será vencido”.  O grito da mulher de 53 anos vinda de Minas Gerais na infância para São Paulo em busca de uma vida melhor juntava-se à multidão de quase 6 mil pessoas que percorreu as ruas centrais de São José dos Campos, no interior de São Paulo, dia 2 de fevereiro, durante a passeata nacional em apoio aos moradores de Pinheirinho. Conceição lembra com terror da madrugada de 22 de janeiro, quando os tratores derrubaram a casa construída com sacrifício pela catadora de lixo. Temeu pela queda das paredes atingirem o próprio corpo. Mas não é a perda do patrimônio material que a leva às lágrimas. Ela se comove ao falar do vizinho cujo desaparecimento segue sem solução. Desde o dia da invasão da polícia não teve notícias do aposentado, que não foi encontrado em nenhum dos cinco abrigos. A solidariedade que sobra a Conceição torna as ações da polícia, da justiça e dos governos Geraldo Alckmin e Eduardo Cury (ambos do PSDB) ainda mais covardes: escancara a discrepância entre “o ato de se preocupar com o outro” e a postura de quem é incapaz de se sensibilizar com o próximo e perdeu as noções de humanidade em nome de interesses econômicos.

As 1,7 mil famílias (cerca de 9 mil pessoas) foram expulsas de suas casas de forma brutal e truculenta. Depois de oito anos na comunidade, não tiveram tempo de nada. Tentaram resistir com tambores de plástico e bastões de madeira. Mas foi uma disputa desigual. Com helicópteros, cavalaria, tropa de choque, gás lacrimogêneo, balas de borracha e armas de fogo, policiais espalharam medo e tensão. Em defesa do poder econômico, a ação defendeu a propriedade privada do megaespeculador Naji Nahas, dono do terreno. Condenado por lavagem de dinheiro e corrupção, ele é acusado pela quebra da Bolsa de Valores no Rio de Janeiro, em 1989, entre outros golpes milionários. Chegou a ser preso em 2008 junto com o banqueiro Daniel Dantas e o ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta. Mas a Justiça preferiu agir contra as famílias de Pinheirinho. A juíza da 6ª Vara Cível de São José dos Campos, Márcia Mathey Loureiro, proferiu a sentença de reintegração de posse, contrariando a liminar da Justiça Federal que suspendia a invasão policial. Junto com o evidente interesse econômico naquela área, as decisões que culminaram na chacina lembram o que ocorreu na Alemanha, com o Terceiro Reich. Propunha-se uma “faxina social” cujo único objetivo era a extinção dos pobres.

_ O que houve em Pinheirinho foi um estupro social _ define o coordenador geral do movimento, Valdir Martins, o Marron.

A marcha nacional buscou sensibilizar o governo federal para desapropriar o terreno e garantir o direito de moradia às famílias. Nas faixas levadas pelos manifestantes, palavras de ordem expressavam o desejo: “Dilma: não basta se solidarizar, é preciso desapropriar.” A passeata durou cerca de três horas. A concentração iniciou por volta das 9h, na Praça Afonso Pena, e seguiu até a prefeitura municipal. O grande número de mulheres carregando crianças no colo, algumas recém-nascidas, chamou à atenção e derrubou a ideia veiculada por muitos jornais, que trataram os moradores como “criminosos” e “bandidos”.

_ Quando entramos no Pinheirinho era tudo matagal. Agora nossa casa “tava” pronta. Não sobrou nada. Mataram até os gatos. Foi terrível. Não consegui nem tirar o leite da pequena _ diz Moacir de Paiva Rosa, 62 anos, que fez todo o percurso da passeata com a filha de cinco anos no colo.

Acompanhado da mulher e dos dois filhos, o mais novo com um mês e 15 dias nos braços, o caminhoneiro Reginaldo Santos Miguel, 34 anos, relembrava o massacre aos direitos humanos:

_ Saímos de lá à base de bala. Fomos tratados como bichos. Não acredito em mais nada. Só em Deus.

Militantes, estudantes, movimentos sociais, lideranças da esquerda de todo o país juntaram forças em solidariedade às famílias. O Sindicato dos Bancários de Blumenau e Região organizou um ônibus com 39 pessoas do Vale do Itajaí, Florianópolis e Curitiba. Levaram mantimentos e solidariedade. Em comum, um objetivo: denunciar para o mundo como os pobres são tratados no país. Afinal, o que ocorreu em Pinheirinho não foi um ato isolado apenas contra aquelas famílias, mas uma afronta a todos os trabalhadores e aqueles que não compactuam com injustiças sociais. Em São José dos Campos, os relatos e depoimentos de moradores despejados reforçam a indignação e revolta:

_ Quando a polícia chegou, sitiou todo o local e começou a tortura. Aquele que não sofreu tortura física foi vítima de tortura psicológica. O massacre foi total. Uma covardia _ lembra o morador Sérgio Henrique Pires.

_ Doeu muito voltar lá e ver tudo o que você construiu abaixo. Foi de cortar o coração _ relata o baiano, de Salvador, Arnaldo Goes Santana, de 63 anos, há seis anos no Pinheirinho.

_ Meu barraco era pequeno, mas era meu. Meu pai não me deu estudo, nem meu nome eu sei escrever direito. Meu único sonho realizado era ter meu lugar. Meu sonho não é vir pra cidade grande. Quero um lugar pra plantar, como tinha minha horta em Pinheirinho_ conta Conceição.

Mãe de 14 filhos, Conceição morava sozinha no Pinheirinho. O cachorro Julin lhe fazia companhia. Não pôde levá-lo ao abrigo no Bairro Morumbi, onde resiste ao calor e à falta de espaço com cerca de 350 pessoas. Faltam janelas. Os ventiladores não dão conta de refrescar o ambiente. Os colchões estão amontoados no chão do ginásio de esportes. Não há espaço para todas as famílias no ginásio. Algumas delas estão numa cancha de bocha, ao lado.

_ Falta água. Falta tudo. As pessoas estão amontoadas. Os abrigos mais parecem campos de concentração_ defende Marron.

_ Aqui não é lugar para morar, para criar um filho. Mesmo sendo pobre, vou dar o melhor para meu filho. Quero voltar para o que é meu _ emociona-se Fabiana da Silveira Nemeth, 30 anos, mãe de Rafael, de três.

A área de 1,3 milhão de m² onde viviam as famílias lembra um cenário de guerra. O retrato é de destruição total. Localizado em uma região nobre de São José dos Campos, o terreno funcionava como bairro, com casas de alvenaria, pontos de comércio, até área de lazer para as crianças. Só restaram escombros. Pedaços de eletrodomésticos, ursos de pelúcia, brinquedos, panelas e móveis inteiros destruídos provam que os moradores não tiveram tempo de recolher nada. Saíram com a roupa do corpo. Precisam ter devolvida a dignidade que lhes foi arrancada.

A indignação não basta. Solidarizar-se com os moradores não é suficiente. Há outros “Pinheirinhos”, alvos da especulação imobiliária, da perversidade de um sistema político que coloca os lucros acima da vida humana, espalhados pelo Brasil. Que as vozes indignadas com o que houve em Pinheirinho não silenciem com o passar do tempo. Que o grito de Dona Conceição, a moradora de Pinheirinho que não se cansava de bradar: “o povo unido jamais será vencido” sirva para despertar outras vozes e ações de resistência e coletividade.

Texto e fotos: Magali Moser

Jornalista

 

Publicado em Jornalismo | 5 Comentários